Ergatividade em yanomami

Henri RAMIREZ

 

 

Com um população de mais de 20.000 pessoas, os yanomami vivem em pequenas comunidades dentro de um vasto território na fronteira entre o Brasil e a Venezuela. Por causa das dificuldades de acesso a esta região florestal e montanhosa, os yanomami ficaram ilesos até recentemente à desintegração cultural de que foram vítimas a maioria das etnias amazônicas em contato com o mundo moderno. Monolíngües, esses índios falam idiomas que formam uma pequena família de quatro línguas estreitamente relacionadas entre si (as diferenças lexicais e gramaticais entre essas línguas poderiam ser aproximadamente comparadas às encontradas entre o português e o italiano).

Nesta comunicação, apresentaremos alguns aspectos gerais da fonologia e da gramática yanomami (seção 1) antes de estudar a ergatividade comum a todas as línguas desta família (seções 2, 3, 4 5 e 6).

1. Aspectos gerais  

O inventário fonêmico consta de 7 vogais (a, e, i, o, u, ö, «) e 11 consoantes (p, t, k, s, S, h, m, n, r, w, j), mais a consoante fw que aparece em alguns dialetos. O acento não é constrativo e cai na penúltima sílaba da palavra fonológica. O padrão silábico predominante é (C)V, com alguns grupos consonânticos (pr, kr, mr, hr, th) aparecendo em muito poucos morfemas (com a exceção de th, que é mais produtivo). Os fenômenos de nasalização são muito complexos e podem ser considerados como um traço das vogais que se espalha nas soantes adjacentes (para mais detalhes, cf. Ramirez, 1994, pp. 46-84).

A seguir, apresentamos alguns dos traços morfossintáticos mais salientes do yanomami:

· A ordem não-marcada para a ênfase é APV ou (a língua sendo ergativa) Erg+Abs+V. Por exemplo:

(1) Joahiw«-nö1  Sama2  a+wa-re-ma3      Joahiw«1  comeu3  anta2

Os fatores pragmáticos mudam freqüentemente esta ordem: o elemento focalizado aparece em começo de enunciado (de forma que (1) significa também “foi Yoahiw« que comeu anta”) e a retomada do tópico para fins de clarificação efetua-se em fim de enunciado (Sama  a+wa-re-ma Joahiw«-nö ele comeu anta, o Joahiw« ).

· A morfologia verbal é extremamente complexa: mais de 50 sufixos entram numa combinatória extremamente variada, o que permite mais de 210 000 combinações a partir de uma raiz verbal, que pode conter até 8 sufixos. Os conceitos veiculados por esses sufixos são: correferência pessoal (com distinção entre singular, dual, plural, inclusivo e exclusivo), tempo (futuro, passado recente, passado hodiernal, passado remoto), aspecto (dinâmico, perfectivo, télico), orientação espacial (longe, perto, rio abaixo, em casa, orientador convexo, orientador côncavo, base, focus, extensivo, centrípeto, centrífugo), modalidade epistêmica (dedutivo, reportativo), polaridade (afirmativo, negativo), diátese (causativo, reflexivo, recíproco), etc.

· Os sufixos nominais referem-se ao possuidor (-j« 1sg, -h« 2sg) ou marcam certas funções (-nö ergativo/instrumental, -iha(mö) referencial (“com referência a”), -ha(mö) locativo, direcional, -naha comparação).

· Existe uma subclasse nominal constituída de morfemas dependentes/presos que se incorporam obrigatoriamente ao complexo verbal quando se referem ao absolutivo. Nesta subclasse, encontramos as partes do corpo e outras partes ontológicas (“urina”, “ovo”, “ninho”, “buraco”, “rastro”, “caminho”, “sonho”, etc.). Por exemplo:

(2) Sama    ja+   he    +  wa  - re -ma        (e nunca: *Sama+he  ja+wa-re-ma)

anta     1sg+cabeça+comer-Tel-Pas

comi a cabeça da anta

Além das partes ontológicas, esta subclasse de morfemas dependentes contém:

- mais de 100 classificadores que dividem os nomes em número igual de classes nominais. Exemplo com o nome wa)iko)ja sucuriju cujo classificador é kö Cl:cobra:

(3) wa)iko)ja   ja +     kö   +  tu   - pra – ke-ma  

sucuriju   1sg+Cl:cobra+cortar-Disc-Foc-Pas

cortei a cabeça da sucuriju

Só se deve incorporar o classificador associado ao absolutivo. O classificador associado ao ergativo fica fora do complexo verbal, dentro do sintagma ergativo. Exemplo com kori garça (classificador associado: una) e mau água(classificador associado: u Cl:líquido):

(4) kori+una+p«-nö       mau           u     + koa -  ö  -he

garça+ Cl  +pl-Erg      água    Cl:líquido+beber-Din-3pl/Erg

as garças bebem água

- um certo número de morfemas que se incorporam também ao complexo verbal e cujo semantismo os assemelha a “morfemas gramaticais”: ka)i diátese comitativa, nap« diátese adversativa, e diátese oblíqua, riâa intencional, Siâro habitual, pata aumentativo, wai diminutivo, ho)ra reportativo, manaSi dedutivo, ma contra-expectativo, etc.

· Nesta breve apresentação das línguas yanomami, o leitor atento terá notado dois tipos de morfemas presos: os sufixos (marcados por um hífen: -) e os morfemas incorporados aos complexos verbal ou nominal (marcados por uma cruz: +). Esses morfemas incorporados são as partes do corpo, os classificadores, certos morfemas gramaticais e a maioria dos indícios pessoais (morfemas correferenciais aos SN ergativo e absolutivo do enunciado). Os argumentos que sustentam esta divisão entre afixos e incorporados (posição fixa para o sufixo e variável para o incorporado, ligação fonética à raiz mais forte para os sufixos, etc.) não serão detalhados aqui.

2. Ergatividade em yanomami

Consideraremos o enunciado como formado de um sintagma verbal (SV) e de um certo número de sintagmas nominais (SN). Simbolizamos os SN que entram nesta discussão como:

    U     SN que expressa o único argumento de um enunciado intransitivo

    A     SN que expressa o argumento tipicamente agente de um enunciado transitivo

    P     SN que expressa o argumento tipicamente paciente de um enunciado transitivo

As línguas apresentam um certo número de construções que permitem diferenciar U, A e P, a orientação verbal sendo igual e minimamente marcada: 

                   U=A                     construção acusativa  (construção pacientiva?)

                   U=P                     construção ergativa (construção agentiva?)

                   U¹A¹P                ?

                   Uvx=A e Uvy=P     construção ativa, agentiva, dual

Nesta terminologia, = significa “comporta-se estruturalmente como”, o comportamento estrutural dos SN sendo evidenciado (1) por marcas casuais, (2) pela ordem dos sintagmas no enunciado e/ou (3) por afixos pessoais correferenciais a esses SN dentro do SV (concordância). Alguns exemplos em latim e em yanomami traduzidos em português e em inglês:  

(5) Petru-s        curri-t                (6) Joahiw«     a+   ia   -ma

Pedro-Nom   corre-3sg                                   Joahiw«  3sg+comer-Pas

Pedro corre/Peter runs                Joahiw«  comia/Joahiw«  was  eating

(7) Petru-s     sue -m   sagitta-t       (8) Joahiw«-nö  war«   a   +  nia    -ma

Pedro-Nom porco-Ac flechar-3sg/A        Joahiw«-Erg  porco   3sg/P+flechar-Pas

Pedro flecha o porco/                        Joahiw« flechou o porco/

P. fires an arrow at the pig               J. fired an arrow at the pig        

Comparando (5) e (7), vemos que U=A em latim (pela marca casual –s nominativo de U/A diferente da marca –m acusativo de P e pela concordância U/A), em português (pela ordem UV/AVP e pela concordância U/A) e em inglês (pelas mesmas razões). Comparando (6) e (8), vemos que U=P em yanomami pela ausência de marca casual de U/P em oposição com a marca -nö ergativo de A e pelos afixos pessoais correferenciais (a+ para U/P, nenhum para A). Em outras palavras, o latim, o português e o inglês apresentam construções acusativas enquanto o yanomami evidencia construções ergativas. Observa-se que a ordem das palavras só pode servir de critério diferenciador para línguas de ordem AVP ou PVA, como o português e o inglês, e nunca para línguas de ordem APV, PAV, VAP ou VPA, como o latim e o yanomami, os SN em jogo aparecendo todos antes ou depois de SV.

Três observações importantes devem ser feitas sobre a ergatividade do yanomami:

· A primeira é trivial: a transitividade definida no eixo agente/paciente pode parecer imprecisa. Ela é apenas prototípica. Com efeito, o ergativo A (marcado por -nö) e o absolutivo P (não marcado) podem desempenhar os papéis de agente-paciente (“A mata P”, “A flecha P”, “A manda P”, etc.), possuidor-possuído (“A possui P”), experimentador-experimentado (“A viu P”, “A ouviu P”, “A entende P”, “A gosta de P”, “A tem medo de P”), etc. No entanto, não há ergatividade em verbos bivalentes para os quais um dos actantes é um locativo/direcional (“X está em Y”, “X vai a Y”) ou em relações equativas (“X é Y”). Em todos esses casos, X é marcado como um absolutivo e Y, com uma marca locativa ou, nas relações equativas, como um absolutivo.

· Em yanomami, a transitividade é um traço inerente ao verbo: cada verbal aparece rigorosamente definido no léxico com verbo transitivo ou  verbo intransitivo. Em outras palavras, há uma isomorfia total entre o conceito semântico de valência e a noção gramatical de transitividade. Isso não é o caso do português, do inglês e da maioria das línguas da Amazônia em que um verbo bivalente pode aparecer em enunciados transitivos (Pedro comeu peixe, o sol amadureceu a banana, o vento quebrou a janela) ou em enunciados intransitivos (Pedro comeu, a banana amadureceu, a janela quebrou). Em yanomami, tais construções são impossíveis e, por exemplo, os verbos wa- v.tr. comer (algo) e ia- v.intr. comer, alimentar-se só podem aparecer, respectivamente, em enunciados transitivos e intransitivo:

(9) Joahiw«-nö kurata  a         + wa  -ma           (10) Joahiw«   a  +   ia   -ma

Joahiw«-Erg banana  3sg/Abs+comer-Pas               Joahiw«  3sg+comer-Pas

Joahiw« comia a banana                             Joahiw« comia

Essas estratégias subjacentes de orientação já marcadas no léxico obrigam assim a aumentar um pouco o número de morfemas (como no caso acima de wa- e ia-), a transitividade de cada morfema sendo rigorosamente respeitada. No caso de koa- v.tr. beber, não há equivalente lexical intransitivo, o que obriga a língua yanomami a dizer “já o bebi” e nunca “já bebi”. 

· Nos exemplos (5, 6, 7, 8), os alinhamentos consistem em enunciados igualmente marcados quanto à orientação verbal: voz ativa em latim e “voz neutra” em yanomami, em português e em inglês. Como não há nenhuma marca diatética nos exemplos yanomami, inglês e português, esta “voz neutra” poderia melhor ser chamada de “voz não-marcada”. Observa-se que a gramática tradicional, adotando os conceitos codificados nas línguas grega e latina, chega a uma espécie de loucura furiosa quando apresenta esta ausência de marca diatética como uma “voz ativa” (V) em oposição simétrica com uma “voz passiva” (ser V-do em português, be V-d em inglês). Ao nosso ver, esta vontade de salientar  uma simetria é ilegítima porque não há nenhuma codificação verbal que seria própria desta “voz ativa”. A “voz ativa” carece igualmente de significado: se o sujeito da “voz passiva” é prototipicamente um paciente (o peixe foi comido, etc.), o sujeito da “voz ativa” não tem nenhuma caracterização semântica (agente em Pedro corre, paciente em Pedro morre). Sem significante e sem significado, essa “voz ativa” não tem nenhum estatuto que a justifica. Esse preconceito enraizado na tradição grego-latina atingiu também os lingüístas que, procurando o equivalente da voz passiva nas línguas ergativas, chamam-na, quando a encontram, de “voz-anti-passiva”: como o sujeito desta “voz antipassiva” é prototipicamente um agente, seria bem melhor salientar a simetria entre construções acusativas e ergativas, e falar de “voz ativa” em vez de “voz antipassiva”, esquecendo de vez a nomenclatura tradicional. De qualquer forma e qualquer seja o rótulo adotado, os fatos yanomami mostram que esta língua carece totalmente de voz antipassiva (ou melhor, ativa): não há nenhuma marca diatética graças à qual o agente possa ser promovido à função absolutiva.

Outro problema, que nos parece crucial, surge quanto à orientação verbal nos alinhamentos. Os enunciados comparados devem ter as mesmas marcas diatéticas. Em português, podemos comparar Pedro come/Pedro come a banana (construção acusativa). Não podemos comparar Pedro corre/a banana foi comida por Pedro ou a banana foi comida/a banana foi comida por Pedro (construções ergativas). Como tivemos o cuidado de definir os conceitos em termos de transitividade e não de valência, poderíamos contra-argumentar observando que todos esses enunciados são intransitivos (por exemplo, por Pedro é um adjunto e não um complemento). No entanto, nada nos obriga a postular que isso seja universal: podemos imaginar que uma língua opõe de maneira ergativa enunciados equivalentes a corrida de Pedro/lavagem da roupa por Maria, em que corrida e lavagem seriam verbos, e de Pedro, da roupa e por Maria seriam SN funcionando como sujeito ou complemento, e não como adjunto. Nessas condições, todas as precauções são poucas e os alinhamentos não-marcados quanto à orientação verbal devem ser preferidos. Isso não resolve o caso de línguas sem voz neutra como o latim (“voz ativa” vs “voz passiva”) ou como certas línguas da Amazônia, como o maués e o munduruku, em que o verbo sempre aparece com uma marca diatética. Nessas línguas, a orientação verbal poderia ser a verdadeira origem das estruturas acusativas, ergativas ou duais. Levando as coisas ao extremo, pode-se imaginar que os enunciados que não são diateticamente marcados o são inerentemente pela orientação própria ao lexema verbal: neste caso, os fenômenos de acusatividade e ergatividade perderiam toda sua importância.

3. Ergatividade nas marcas casuais e nos indícios pessoais

Por indício pessoal, entendemos o afixo ou o incorporado correferencial ao SN ergativo ou absolutivo dentro do SV. Esses indícios pessoais são necessariamente presentes, mesmo quando as entidades correferenciais estão no enunciado. Em outras palavras, o yanomami indica as funções gramaticais básicas por marcas casuais e por indícios pessoais incorporados ao complexo verbal, os SN podendo ser omitidos se o contexto o permitir.

No nível das marcas casuais (-nö Erg/Instr e nenhuma marca para o absolutivo), o padrão ergativo é um dos mais coerentes que se possa imaginar: não há nenhum tipo de cissão acusativa em nenhuma língua yanomami. Podemos assim falar de línguas puramente ergativas, as marcas ergativa (-nö) e absolutiva (nenhuma) aparecendo em todos os enunciados em que os SN são explicitados. Em particular, não há cissão conforme o tempo ou aspecto verbal, o conteúdo semântico dos nomes ou dos verbos, o tipo de oração (principal ou subordinada). Exemplo com o nome kamij« eu:

(11) kamij«-nö  war«       ja    +  p«      +  nia   -ma

   eu   -Erg     porco   1sg/Erg+3pl/Abs +flechar-Pas

  eu flechei os porcos

Observa-se que a mesma marca -nö serve para o ergativo e o instrumental:

(12) akuri-nö Joahiw«-nö   juri        a      +hanö -ma

  faca-Instr  Joahiw«-Erg  peixe   3sg/Abs+cortar-Pas

  Joahiw«  cortava o peixe com faca

Em yanomami, o uso deste sufixo na sua função ergativa exige um ser animado (humano, animal) ou concebido como tal (“lua”, “rio”, “chuva”, “tempestade”, etc.).

No nível dos indícios pessoais, a situação é mais complexa. Os exemplos abaixo mostram que a ergatividade continua a funcionar para a 3a pessoa do plural, o incorporado p« sendo correferencial a U e P (absolutivo) e o sufixo –he fazendo referência a A (ergativo):

(13) wa)ro    p«+toku-ma                 (14) wa)ro-nö      kurata   p«+wa   -ma

  homem  3pl+fugir-Pas                                 homem-Erg  banana   3pl+comer-Pas

  os homens fugiam                             o homem comia as bananas

(15) wa)ro+p«-nö    kurata    p«     +  wa   -ma-he

  homem+pl-Erg  banana   3pl/Abs+comer-Pas-3pl/Erg

  os homens comiam as bananas

Sensíveis ao número (singular, dual, plural) e a exclusão/inclusão do ouvinte, os indícios e sufixos pessoais constituem um quadro tão complexo que ele não pode ser apresentado exaustivamente nesta comunicação. Limitaremo-nos aqui às 1a e 2a pessoas do singular e às 3as pessoas do singular, do dual e do plural:

 

3a sg

3a pl

3adual

1a sg

2a sg

U (absolutivo)

a+

p«+

kö+...-pö

ja+

wa+

P (absolutivo)

a+

p«+

kö+...-pö

ja(re)+,ware+

wa+

A (ergativo)

Æ (nenhuma marca)

-he

-pö

ja+

wa+

Nota-se que U=P (¹A) para as 3as pessoas, o que ainda revela uma estrutura ergativa. Na 2a pessoa, U=P=A: a estrutura é “neutra” (nem ergativa nem acusativa). Na 1a sg, há uma certa variabilidade nas formas correferenciais a P conforme a língua ou o dialeto yanomami (ja, jare ou ware). Para os dialetos que usam ja, a estrutura da 1a pessoa é novamente “neutra”. Para os outros dialetos, a estrutura da 1a pessoa é acusativa, o morfema –re podendo ser interpretado como uma marca intraverbal acusativa.

Em todos os exemplos anteriores, os indícios e sufixos pessoais faziam referência ao absolutivo e ao ergativo. Eles podem também referir-se ao SN marcado pelo sufixo –iha(mö) referencial, sintagma que funciona como beneficiário (“para X”) ou como argumento periférico (“com referência a”). No exemplo seguinte, ja refere-se ao ergativo, -he ao referencial e kö...-pö ao absolutivo. Em yanomami, o complexo verbal é assim capaz de fornecer informação sobre três sintagmas:

(16) kamij«-nö wa)ro+p«-iha  hiima    ja     +  e  +   kö     +hip«-pö-ke-ma-he

  eu    -Erg   homem+pl-Ref  cachorro 1sg/Erg+Obl+dual/Abs+dar -... -Foc-Pas-3pl/Ref

  eu dei dois cachorros aos homens

O leitor deve cuidadosamente notar que as marcas pessoais que se referem ao referencial são idênticas às do ergativo. Como o referencial, que expressa que um sintagma tem acesso a funcões tanto nucleares (o beneficiário no exemplo anterior: “X dá Y a Z”) quanto periféricas (como em: “X come na presença de Z”), o ergativo permite o acesso a funções nucleares (A) e periféricas (instrumental). Tudo isso parece indicar que o SN ergativo é um elemento do enunciado mais periférico que o absolutivo.

4. Diátese em yanomami

· Os incorporados ka)i comitativo (com) e nap« adversativo (contra) podem transitivizar um verbo intransitivo. Exemplos com hu- v.intr. andar, que se torna ka)i+hu v.tr. andar com

(17) e nap«+hu v.tr. andar contra (18):

(17) (kamij«-nö)  Joahiw« ja+ ka)i + hu  -ma     (18) Joahiw«  ja+nap«+ hu  -ma

      eu    -Erg  Joahiw« 1sg+Com+andar-Pas            Joahiw«  1sg+Adv +andar-Pas

 eu andei com Joahiw«                eu andei contra Joahiw« (para bater nele)

Nas construções em kãi, o ergativo é o dirigente/superordenado e o absolutivo, o seguidor/subordinado.   

· O sufixo –ma causativo usa-se com verbos intransitivos (que se tornam transitivos) e com verbos transitivos (que se tornam bitransitivos). No exemplo seguinte, com wa- v.tr. comer, o causador é marcado pelo ergativo -nö e o “causado”, pelo referencial -iha:

(19) Hiteraw«-iha  Joahiw«-nö  Sama      a     +  wa   - ma  -re -ma

   Hiteraw«-Ref    Joahiw«-Erg   anta    3sg/Abs+comer-Caus-Tel-Pas

Joahiw« fez/deixou Hiteraw« comer anta (lit. J. fez comer anta com referência a H.)

· Os sufixos –o reflexivo e –jo recíproco intransitivizam um verbo transitivo. Exemplos com nia v.tr. flechar:

(20) ihiru    a  +  nia  - o                 (21) ihiru   p«+  nia   - jo  -ma

  criança  3sg+flechar-Refl                          criança  3pl+flechar-Rec-Pas

  a criança flecha-se                          as crianças flechavam-se mutuamente

5. Sujeito e recuperação das construções elípticas por joker

Depois de ter visto que as construções ergativas manifestam-se nos sintagmas U, A e P de qualquer enunciado e que elas aparecem também, até um certo ponto, nos indícios pessoais correferenciais a esses sintagmas, perguntaremo-nos se esta ergatividade tem incidências sintáticas. Existe um SN que funciona como sujeito? Qual é o candidato a esta função sujeito, o ergativo ou o absolutivo? Qual é a hierarquia dos SN no enunciado?

As funções sintáticas de sujeito/predicado são aqui definidas em termos configuracionais. Supondo a existência prévia de uma classe verbal bem definida na língua, o sujeito pode ser definido como o CIm do enunciado que é adjunção de SV (construção exocêntrica):

F

 


                                    __              SV

O sujeito/predicado é um morfema funcional que, como qualquer morfema, tem:

- um significado que se refere a seu valor informativo, a estruturação informativa de uma mensagem fazendo parte do sentido global do enunciado: o predicado é o constituinte cujo conteúdo aplica-se ao que é designado pelo sujeito (aporte informativo) enquanto o sujeito é o constituinte ao qual é atribuída a propriedade semântica do predicado (suporte informativo).

- um significante que varia de língua em língua: em português, o sujeito é geralmente anteposto (mas pós-posto nas orações reduzidas, em certas orações interrogativas, como “não desaparecendo os sintomas”, “quanto custa o metro?”, etc.) e há harmonia de flexão entre sujeito e predicado (concordância); em latim, o significante dos morfemas sujeito e predicado é concordância+marca -s no sujeito.

E em yanomami? Retomaremos os exemplos (6) e (8):

(6) Joahiw«1   a+ia-ma2                         Joahiw«1   comia2

(8) Joahiw«-nö1   war«2   a+nia-ma3      Joahiw«1   flechou3   o porco2

A análise sintática evidencia os sintagmas por comutação e permite assim duas construções possíveis para (8):

(a)       F                                          (b)      F

 

   SN            SV                                        SN             SV

 


                 V       SN                                              V           SN

 


Joahiw« nia-ma  war«                             war«   nia-ma   Joahiw«

Em (a), o SN ergativo Joahiw« é o sujeito enquanto o SN absolutivo war« é o complemento (CIm de SV exocêntrico: adjunção de V). Em (b), o absolutivo war« é o sujeito enquanto o ergativo Joahiw« é o complemento. Ambas as construções permitem a realização correta do enunciado: por exemplo, com (b), os significantes desses morfemas fazem que os SN sujeito e complemento sejam antepostos ao verbo, o sujeito se colocando mais perto deste e o complemento se afixando a marca -nö, com concordância entre verbo e sujeito/complemento: (b)® (8) Joahiw«-nö war« a+nia-ma. Com (a), derivaríamos também (8), mas, desta vez, é o SN sujeito que se afixa a marca do ergativo.

Ao nosso ver, a construção (b) parece mais adequada porque a mesma função deve ser atribuída aos SN que têm a mesma estrutura. Em outras palavras, a identidade formal entre U e P (o absolutivo) deve ser interpretada como o fundamento de uma só função, a função sujeito, porque, senão, teríamos dois morfemas funcionais com os mesmos significantes (homofonia). Enquanto o absolutivo é o único SN obrigatório (sujeito), o ergativo é facultativo (complemento). O absolutivo é também um bom candidato a função sujeito por ser livre de qualquer marca e de toda significação que esta marca poderia impor. Além disso, o verbo incorpora morfemas específicos (partes ontológicas, classificadores) que sempre se referem ao absolutivo, a referência ao ergativo sendo mais periférica. Da mesma forma, a polissíntese facultativa, que não estudaremos nesta comunicação, só pode realizar-se com o absolutivo. Enfim, o ergativo tem as mesmas formas intraverbais que o referencial (cf. exemplo (16) e comentários subseqüentes), o que sugere também que o ergativo é um elemento periférico do enunciado.

Um critério muito usado para identificar o sujeito baseia-se no conceito de joker (ou pivot sintático). Freqüentemente, as línguas têm a possibilidade de integrar em frase complexa duas frases sucessivas, com redução de seqüências de orações representando uma sucessão de eventos concebidos como ligados entre si e tendo um ou vários argumentos comuns. Essas estratégias de supressão correferencial acompanham-se da possibilidade de recuperar a identidade do SN suprimido, como em português:

         Pedro viu Paulo e (ele) sentou-se

O gato arranhou o cachorro antes de fugir

em que a supressão dos sujeitos de “sentou-se” e de “fugir” é recuperada na sua identidade: é, respectivamente, o sujeito de “viu” (“Pedro”) e de “arranhou” (“o gato”). Diremos então que o português opera com um joker nominativo. Em outras palavras, o sujeito manifesta-se como um joker que pode substituir qualquer SN e recuperar assim anáforas e elipses em construções complexas.

A manifestação do sujeito como um joker decorre automaticamente do significado próprio do morfema sujeito: o significado de vários morfemas funcionais como suporte informativo autoriza a sua supressão (elipse) ou a sua redução (anáfora) com a possibilidade de recuperar a identidade do morfema funcional suprimido ou reduzido. Isso se verifica para morfemas funcionais como o sujeito, mas também com o determinado de um SN. Por exemplo, em português e em inglês, há duas subclasses da classe dos nomes: os substantivos que funcionam como determinados cujo significado é temático (suporte) e os adjetivos que funcionam como determinantes cujo significado é remático (aporte), em sintagmas nominais como camisa vermelha ou red shirt. Decorrendo do seu significado temático (suporte), o determinado é suprimível em português (elipse), o contexto permitindo restabelecê-lo, por exemplo, em: quer uma camisa vermelha ? – não, quero uma azul. Em inglês, o determinado é reduzível (anáfora) por ser igualmente o suporte informativo, como, por exemplo, em: do you want the red shirt ? – no, I want the blue one. Em resumo, a supressão ou a redução de certos termos, que pode ser ou não permitida pela língua, deve-se ao significado de certos morfemas funcionais como o sujeito, que pode assim manisfestar-se como um joker.

Esta manifestação do sujeito como joker vê-se também claramente em termos configuracionais pela simetria da estrutura sintática, por exemplo em:

                        F

 

         F                              F

 

               Coord            F

 

   SN           SV                (SN)        SV

 

       V       SN

 


Pedro   viu  Paulo  e         (ele)    sentou-se

Em yanomami, as estratégias de supressão de sintagmas nominais são sempre possíveis, os nomes sendo facultativos na cadeia falada. O conceito de joker foi aplicado nesta língua seguindo duas linhas complementares:

· Analisamos um conjunto de textos (122 páginas de histórias míticas, de relatos de caça,...), dos quais extraímos todos os enunciados potencialmente ambíguos, como em:

(22) X bateu em Y e (X/Y) fugiu

e notamos em cada um deles a identidade do SN suprimido.

Os resultados foram os seguintes:

75% dos enunciados com joker absolutivo

16% dos enunciados com joker ergativo

9%    com um duplo joker

Como se vê, há forte predominância de ergatividade no nível sintático. Por exemplo:

(23) a+noma – no -mi,        a     + r«  + nia    - no  -we-i

 3sg+morrer-Perf-Neg   3sg/Abs+Top+flechar-Perf-Af-Test

ele não morreu, (X) que o flechou (significa: ele não morreu, ele que foi flechado (por X)

(24) a       + ha  + töra – ku –tu -nö,      a  +koSiro -a-taro    -ma

  3sg/Abs+Sequ+soltar-Foc-alto-...     3sg+colmeia-tornar-se-Pas

depois que (X) o soltou, ele se transformou em colmeia (significa: depois que ele foi solto,...)

· Elaboramos uma série de jogos mímicos a partir de enunciados potencialmente ambíguos como (22). Esses jogos foram realizados por muitas pessoas da comunidade local (homens, mulheres, crianças) a fim de restabelecer a identidade do SN ausente. Os enunciados foram variados: orações justapostas ou coordenadas, relativas, concessivas, temporais e causais (“X que bateu em Y (X/Y) fugiu”, “enquanto X batia em Y, (X/Y) fugiu”, “(X/Y) fugindo, X bateu em Y”, etc.). Além desses jogos, fizemos perguntas apropriadas (como: “quem fugiu?”) a um certo número de pessoas.

Os testes mimados deram os resultados seguintes:

70% dos enunciados com joker absolutivo

30% dos enunciados com joker ergativo

a mímica sendo “ergativa” ou “absolutiva” conforme o ator e o enunciado proposto.

As respostas a perguntas do tipo “quem fugiu?” confirmaram os testes mimados em apenas menos de 50% dos enunciados. Para mais da metade dos enunciados, a resposta era impossível a dar porque o interrogado achava o enunciado totalmente ambíguo.

Como se vê, os resultados são difíceis de interpretar. Analisando de perto os enunciados ambíguos, observamos a constante interferência de mecanismos independentes (presença de classificadores, polissíntese facultativa, topicalização em r«, regras sobre a ênfase) que são capazes de apagar toda ergatividade sintática e de fazer do ergativo o joker. Mesmo assim, observamos uma forte predominância de jokers absolutivos. Em resumo, há conflitos entre diversos processos de controle, a referência aos sintagmas não explicitados no discurso sendo estabelecida, em ordem decrescente de importância:

    1) por um sistema complexo de incorporados e de classificadores;

    2) por mecanismos de “switch reference” ou de manutenção de referência;

    3) por mecanismos de ênfase e de topicalização;

    4) pela força da situação extralingüística;

    5) pela ergatividade sintática (joker absolutivo).

Como o joker está muito ligado aos conceitos pragmáticos da articulação comunicativa, não é de se estranhar que ele não é muito operante “na prática”. E que dizer dos fatores paralingüísticos que fazem que, em um diálogo como: “o cachorro mordeu teu filho – cadê ele?”, a anáfora pode fazer referência ao sujeito (com uma voz irritada e ameaçadora) ou ao objeto (com uma voz cheia de tristeza e lágrimas nos olhos)? O recurso a formas escritas para a procura de jokers talvez seja a metodologia mais adequada, mas como esta metodologia poderia funcionar em sociedades de tradição oral em que o pesquisador passa ao escrito formas oralmente narradas sem ter a possibilidade de se lembrar de todos os fatores paralingüísticos de que certamente o narrador se aproveitou? Na hora da transcrição, todos esses fatores não estão armazenados no gravador. Em conseqüência, o lingüista deve procurar o joker usando estratégias de descontextualização máxima, o que é mais fácil de dizer do que fazer.

O que podemos concluir do nosso estudo é que a ergatividade sintática (absolutivo como joker) age unicamente se nenhum outro processo entra em conflito com ela: esta ergatividade sintática é sempre fraca e impõe-se com dificuldade.

6. Possível conclusão

Nas discussões sobre o sujeito e o joker, vimos que uma tradução passiva como nos exemplos (23, 24) era melhor para salientar o fato que o joker era o absolutivo. Para Hale (1970, pp. 757-783), as construções ergativas seriam originárias de voz passiva, especialmente nas línguas ergativas, como o yanomami, em que a marca do ergativo é idêntica à marca do instrumental. Seguindo esta sugestão, podemos nos perguntar se as traduções não nos enganam e se não é a orientação dos verbos que faz a ergatividade. Como traduzir o exemplo:

(25) Joahiw«-nö   ihiru      a  + naka -ö

  Joahiw«-Erg   criança   3sg+chamar-Din

J. chama a criança (1) / a criança é chamada por J. (2)  / a chamada da criança por J. (3)

Como são orientados os sintagmas verbais? Existem argumentos estruturais que permitem precisar esta orientação? Em Ramirez (1984, pp. 407-418), sugerimos que a tradução (3) seria a mais fiel quanto à orientação dos verbos. Por falta de espaço, os argumentos que sustentam esta afirmação (estudo dos mecanismos de incorporação, introdução de um verbo existencial com significante zero que permite reduzir as marcas casuais a simples sufixos verbais, etc.) não serão desenvolvidos nesta comunicação. Qualquer que seja o crédito e a força que podemos dar a este tipo de argumentos, acreditamos – e isso será nossa conclusão – que o estudo das construções ergativas não deve ser dissociado da orientação dos predicados e que, mesmo sem nenhuma marca diatética, os verbos ainda podem possuir uma orientação inerente que desempenha um papel crucial na gramaticalização dos diversos argumentos semânticos.

BIBLIOGRAFIA

HALE, K.L. 1970. “The Passive and Ergative in Language Change: The Australian Case”, in S.A. WURM & D.C. LAYCOCK, eds., Pacific Linguistic Studies in honour of Arthur Capell. Canberra, Pacific Linguistics: 757-783.

RAMIREZ, Henri. 1994. Le parler yanomami des Xamatauteri.Tese de doutorado, Universidade de Provence, (França).

2001. Línguas Arawak da Amazônia Setentrional. Manaus, Universidade Federal do Amazonas.

 

ABREVIATURAS

Abs        absolutivo

Ac          acusativo

Adv        adversativo

Af           afirmativo

Caus       causativo

Cl           classificador

Com       comitativo

Din         dinâmico

Disc        discontínuo

Erg         ergativo

Foc        focalizador

Instr        instrumental

Nom       nominativo

Obl         oblíquo

Pas         passado

Perf        perfectivo

Rec        recíproco

Ref         referencial

Refl        reflexivo

Sequ       seqüencial

Tel          télico

Test        testemunhal