Kuikuro
Uma língua ergativa no ramo meridional da família Karib (Alto Xingu)

Bruna FRANCHETTO

MN/UFRJ, CNPq

Os Kuikúro - cujo auto-etnônimo é Lahatuá otomo, "o pessoal/gente de Lahatuá" ou, expressão mais freqüente hoje, Ipatse otomo, "gente de Ipatse"-  habitam três aldeias próximas às margens do rio Culuene, ao norte do Estado de Mato Grosso (Brasil), com uma população de cerca de 500 pessoas. Uns cinquenta indivíduos vivem na aldeia Yawalpiti convivendo com falantes de línguas aruak e tupi. Os Kuikuro são um dos quatro grupos locais de língua karib, cujo território tradicional é a região oriental da bacia hidrográfica percorrida pelos formadores do rio Xingu, afluente meridional do rio Amazonas. A região do Alto Xingu é uma unidade do ponto de vista ecológico, político e cultural, onde diferentes etnias formam uma sociedade intertribal e plurilíngue, que foi se constituindo historicamente ao longo dos últimos tres séculos, conservando, contudo, os traços de uma matriz original aruák. Esta se manifesta nos léxicos das línguas alto-xinguanas, nos rituais e seus cantos, em vários elementos da organização política intra e intertribal. A identidade linguística é um dos emblemas mais importantes da identidade social dos grupos locais. Assim, o jogo contrastivo das identidades sócio-políticas dos grupos locais karib se faz com base nas diferentes estruturas rítmicas (prosódicas) que contrastam três variantes dialetais. Kuikúro, Matipú, e Kalapálo/Nahukwá. Do ponto de vista da classificação genética no interior da família karib, a língua karib do Alto Xingu é uma ilha distinta nas suas estruturas sintática e fonológica, distingüindo-se das outras línguas do ramo meridional, que formam um agrupamento que inclui Bakairi e Ikpeng/Arara.

A pesquisa e o estudo do Kuikuro se iniciou em 1977, resultou em uma tese de doutorado, uma dissertação de mestrado e várias trabalhos publicados e inéditos (ver bibliografia). Desde 2001 está em andamento o Projeto de Documentação Lingüística, Etnográfica e Histórica da língua Kuikuro (e do karib alto-xinguano), apoiado pela Fundação Volkswagen e pelo Max Planck Institute for Psycholinguistics, e com duração de quatro anos.

Este trabalho é uma síntese preliminar para exclusiva circulação interna ao grupo de trabalho sobre ergatividade na Amazônia e tem como objetivo apresentar os principais dados e informações sobre a língua Kuikuro de modo a constituir o ponto de partida para discussões em torno das propriedades morfológicas e sintáticas cuja manifestação configura aquilo que é chamado de um padrão ergativo (difuso e dominante) do ponto de vista tipológico. Acreditamos que o termo ‘ergatividade’ não passa de um guarda-chuva sob o qual se abrigam fatos gramaticais heterogêneos em termos de uma comparação inter-lingüística.

O leitor não encontrará nenhuma referência à literatura lingüística, nem a que tratou o tema da ergatividade, nem na área de línguas karib. Nós nos reservamos a inclusão dessas referências numa próxima versão mais elaborada, que precederá a realização do próximo encontro do grupo. Na Parte I, daremos algumas informações básicas sobre a fonologia e sobre as convenções ortográficas utilizadas na transcrição dos dados aqui oferecidos. Na Parte II, o mesmo será feito para a morfologia, restringindo-nos à morfologia flexional nominal e verbal; esta parte é fundamental para começarmos a entender a ‘ergatividade’ Kuikuro, já que morfologia e sintaxe estão absolutamente entrelaçadas. Na Parte III entraremos na sintaxe frasal, abordando sucintamente fatos e problemas como a de-ergativização. A Parte IV é, na verdade, uma breve exposição de fenômenos cruciais da interface entre morfologia e sintaxe em Kuikuro, quais os processos de transitivização e intransitivização. Não incluímos a parte dedicada às estruturas de controle e correferência, aspecto fundamental para a discussão da ergatividade, tema que deverá, na nossa opinião, ser tratado num próximo encontro do grupo de discussão.

1. FONOLOGIA

O inventário fonémico Kuikúro:

Consoantes

 

Bilabial

Alveolar

Palatal

Velar

Glotal

Plosive

p [p] [p>] [h] [b]

t [t] [t>]

[d]

j

k [k] [k]

[g]

 

Fricative

 

s [s>]

 

Ä

h

Affricate

 

ts

 

 

 

Lateral

 

l

 

 

 

Nasal

n [n] [n>]

m [m] [m]

ø

N

 

Approximant

w

 

 

 

 

Vogais

 

Front

Central

Back

High

i i [i]["]

ö ö [ö] [«]

u u [u] [U]

Mid

e e [E][e]

 

o o [] [o]

Low

 

a a [a] [Œ] [Ã]

 

·        Alongamento vocálico:

O alongamento vocálico ocorre:

(i)      inerente à representação fonologica lexical (vogais longas subjacentes):

Ex. E>>ÈgEpe  "terra preta"

(ii)      em sílabas acentuadas (concomitante ao pitch tonal):

Ex.  uÈmu>Äu          "my son"

(iii)     como conseqüência de processos morfofonológicos, como no paradigma seguinte (ver seção 2.2):

uaÈkEne             "my sister-in-law"

aaÈkEne ® a>ÈkEne    "your sister-in-law"

aÈkE>>ne              "her/his sister-in-law"

A estrutura silábica:       (C)V

O acento de altura principal geralmente na penúltima sílaba da palavra. Sílabas finais pesadas (nasalizadas e ditongadas) atraem o acento.

A estrutura rítmica: construção de troquéus moráicos da direita para esquerda

Processos fonológicos, ver Franchetto 1995 (assimilação como harmonia vocálica, palatalização, pré-nasalização e vozeamento).

Estrutura rítmica, alongamento vocálico e nasalidade são tópicos ainda em fase de análise.

Convenções para a transcrição ortográfica utilizada neste trabalho:

A ortografia hoje usada pelos Kuikuro usa as convenções seguintes:

ö ®  ü

Ä ®  g

N ® ng

ø ® nh

<g ®  nkg

2. MORFOLOGIA FLEXIONAL

Nesta seção apresentamos tão somente os principais aspectos da morfologia flexional Kuikuro, necessários para o entendimento da língua e de sua ergatividade, bem como para o problema da categorização das partes-do-discurso ‘nome’e ‘verbo’. Veremos, assim, que ‘nome’e ‘verbo’não se distingüem nitidamente pela flexão e encontraremos outras evidências que questionam a postulação de categorias definidas no léxico. Na dissertação de mestrado "Morfologia Kuikuro: as categorias ‘nome’ e ‘verbo’ e os processos de transitivização e intransitivização", defendida por Mara Santos no curso de pós-graduação em Lingüística da UFRJ em dezembro de 2002, uma proposta à luz da teoria Morfologia Distribuída permitiu considerar que a categorização é fenômeno sintático: verbos e nomes são produzidos na sintaxe através de processos de verbalização e nominalização marcados por formas funcionais e através da projeção da configuração frasal. Admitimos que o léxico é constituído apenas por raízes ‘nuas’ e a-categoriais, portadoras de traços morfológicos (pertencimento a uma ou outra classe flexional, ver seção 2.3) e semânticos. Deste modo, quando falamos de ‘verbo’e ‘nome’ nós nos referimos ao resultados de processos morfológicos internos à sintaxe.

2.1 Série única de marcadores de pessoa, prefixos, com verbos, nomes e posposições.

Em Kuikuro, temos somente uma única série de proclíticos marcadores de pessoa que ocorrem tanto com nomes como com verbos e que derivam, claramente, das formas pronominais livres:

                          ABS                       ERG

1                         u-                           u-heke

2                         e- (o-, a-, Æ)           e-heke

3                         i-                            i-heke

                          (is-, iø-,Æ com alongamento da segunda sílaba da raiz)

12(INCL)            ku- (kuk-)                kupehe

13(EXCL)           ti-  (tis-)                  ti-heke

REFLEXIVO      t- (tü-, tu-)

Pronomes livres:

1             uge                             13           tisuge                12  kukuFe

2             ege                             2pl          amago

3             ese (próximo)             3pl          ago

               ekise (distante)            3pl          akago

               üngele (anafórico)                      (ü)nago

2.2  Morfologia nominal

(i)  Posse/dependência: prefixo de pessoa e sufixo de ‘posse’

Os prefixos são da série única apresentada acima. Aqui abaixo está um exemplo do alongamento da vocálico resultante do condicionamento por harmonia vocálica na segunda pessoa:

u-aÈkEne              "minha cunhada"

a-aÈkEne ® a>ÈkEne   "sua cunhada"

No paradigma desta palavra, e das outras palavras da mesma classe flexional, a terceira pessoa não é marcada pelo prefixo usual i- (is-, iø-), mas pelo alongamento saliente da vogal da segunda sílaba da raíz:

aÈkE>>ne              "cunhada dele/dela"

O sufixo de ‘posse’ pode ser zero:

1.         u-engü                        "minha coisa/posse"

1-coisa/posse

           kuk-oto                      "nosso dono/nosso afim potencial da geração +1"

12-dono

Ou o sufixo -gü, com seus alomorfes determinados por harmonia vocálica:

2.         u-inhatü-gü                 "minha mão"

           u-muku-gu                  "meu filho (mulher falando)"

           u-tolo-gu                    "meu animal de estimação"

Ou o sufixo -lü, se a raiz acaba por gü:

3.         u-ügü-lü                      "meu anzol"

Raízes homófonas se ‘desambigüam’ tão somente por pertencerem a classes morfológicas distintas (visíveis pelo sufixo de ‘posse’):

4.         u-hi-gü                        "meu neto"

          1-neto-REL

           u-hi-tsü                       "minha esposa"

1-esposa-REL

           u-hi-sü                        "meu irmão mais novo"

1-irmão/mais/novo-REL

(ii)  Sufixos de plural:

O sufixo mais comum com nomes é -ko, referindo-se à pluralidade do ‘possuidor’:

5          kuk-oto-mo-ko           "nossos donos (de todos nós)"

12-dono-pl-pl

Na palavra acima, encontramos também outro sufixo ‘coletivizador’, -mo, que ocorre apenas com alguns termos de parentesco, como uingajomo, "minhas irmãs" (a categoria de todas as mulheres que chamo de ‘irmã’).

Com posposições, o sufixo de plural -ni marca a pluralização da pessoa expressa pelos proclíticos de pessoa:

6.         e-heke-ni                     vocês Erg

          2-Erg-PL

           i-kae-ni                       sobre eles

3-sobre-PL   

           i-kae-nga-ni                 para sobre eles

3-sobre-AL-PL

(iii)  Tempo:

Passado e futuro podem ser expressos nos ‘nomes’:

7.         i-hitsü-pe                    "ex-esposa dele / aquela que foi a esposa dele"

          3-esposa-ex

           i-hitsü-ingo                 "futura esposa dele"

          3-esposa-FUT

2.3  Morfologia flexional verbal

(i) Mesma série de proclíticos de pessoa (série única) indicando S (argumento de verbo monoargumental) ou P (argumento interno de verbo biargumental): alinhamento ergativo (ver seção dedicada à sintaxe frasal).

(ii) Mesmo sufixo plural que ocorre com os nomes (-ko, pluralizando S ou P, alinhamento ergativo)

8.         (e)te-lü-ko  leha                  eles partiram

          3-ir-PONT-PL CMPL

           e-ingi-lü-ko leha  u-heke      eu  vi vocês

          2-ver-PONT-PL CMPL 1-ERG

(iii) Os sufixos de aspecto, o Pontual e o Continuativo, modo descritivo, lembram sem dúvida os sufixos de ‘posse/relação/dependência"que ocorrem com os nomes.

-tagü, Continuativo, poderia ser segmentado em -ta- (formativo que carregaria propriamente o valor de fluxo temporal), e -gü, forma igual ao sufixo nominal.

O futuro é expresso pelo sufixo -lüingo, em que são reconhecíveis o aspecto Pontual -lü (igual a um dos sufixos de ‘posse’ nominal) e -ingo, que indica futuro também nos nomes.

(iv)   Classes morfológicas

Observando o quadro abaixo, o paralelo com os sufixos nominais é instigante.

O Quadro 01 mostra sucintamente as classes flexionais dos verbos produzidos por √Raiz (a-categorial) + categorizador verbal fonologicamente nulo. A nasal representada por N, e que desencadeia determinados processos fonológicos, poderia ser considerada como um verbalizador de extrema produtividade e de significado muito geral (uma espécie de verbalizador ‘puro’). No quadro visualiza-se, também, a distribuição dos verbos nas classes ‘transitivo’(Vt, biargumental) e ‘intransitivo’ (Vi, monoargumental). O pertencimento a uma classe morfológica tem reflexos não apenas sobre o conjunto de sufixos aspectuais do modo descritivo, incluídos no quadro, mas também sobre os sufixos dos outros modos (imperativo, hortativo, intencional), sobre os de ‘passado’ (uma forma semi-finita e dependente), bem como sobre os nominalizadores de ‘instrumento’, temporais, finalidade, entre outros.

Quadro 01

 

Aspec

Cont/

Pont/

Perfc

I

-tagü

Ø

-hügü

II

-tagü

-nügü

-tühügü

 

III

-tagü

-lü

-pügü

IV

-tsagü

-jü

-pügü

V

-gagü

-lü

-pügü

 

 

Vt

 

 

 

 

ongiN-tagü>ongindagü

ongiN-nügü> onginügü

ongiN-tühügü >

ongindühügü

enterrar

tuN-tagü >tundagü

dar

emüN-tagü>emündagü

afundar

 

ahu-tagü

ahu-nügü

ahu-tühügü

fechar

ane-tagü

queimar

anhe-tagü

perder

 

 

agi-tagü

agi-lü

agi-pügü

jogar

hetagü

quebrar

hotsi-tagü

furar

 

agugi-tsagü

agugi-jü

agugi-pügü

rachar

ahükügi-tsagü

diminuir

ahehi-tsagü

desenhar

 

 

api-gagü

api-lü

api-pügü

bater

hote-gagü

 queimar

ipo-gagü furar

ape-gagü

fincar

 

Vi

 

anguN-tagü > angundagü

anguN  > angu

angu(N)-hügü   > angühügü

dançar

apünguN-tagü  >

apüngündagü

morrer

imaguN-tagü  > imagundagü

parir

 

akaN-tagü > akandagü

sentar

eN-tagü > endagü

entrar

kongoN-tagü> kongondagü

secar

 

 

ije-tagü

ije-nügü

ije-tühügü

nadar

ale-tagü

encher

 

 

alahi-tagü

alahi-lü

alahi-pügü

abaixar

apitsi-tagü

escorregar

atão-tagü

sobrar

 

 

ahu-tsagü

ahu-jü

ahu-pügü

encher

aku-tsagü

estar de barriga cheia

gopi-tsagü

voltar

 

ihati-gagü

ihati-lü

ihati-pügü

sair

apü-gagü

amadurecer

ati-gagü

nascer

Como vimos acontecer com os nomes, raízes homófonas se desambigüam uma vez projetadas como verbos na sintaxe e flexionadas por uma das classes:

9.         ahu-tagü          ahu-nügü         "fechar"

           ahu-tagü          ahu-lü              "pilar"

           ahu-tsagü        ahu-jü              "inchar"

O Quadro 02 mostra sucintamente as classes flexionais dos verbos produzidos por √Raiz + categorizadores verbais fonologicamente realizados:

quadro 02

Aspec

Cont/

Pont/

Perfc

Categorizador verbal

I

-tagü

zero

-hügü

-tuN, -tsuN,

-nguN,

-nhuN

II

-tagü

-nügü

-tühügü

 

 

III

-tagü

-lü

-pügü

-tsi, -nde, -ki,

-ndi, -ti

IV

-tsagü

-jü

-pügü

V

-gagü

-lü

-pügü

-te,

 

 

Vt

 

 

 

 

 

 

 

 

agipi-tsi-lü

tirar sobrancelha

iküpi-tsi-tagü

tirar barba

imbuhi-tsi-tagü

tirar pêlos pubianos

taho-nde-lü

dar faca

aün-ki-tagü

tirar piolho

agü-ki-tagü

tirar semente

ingüN-ki-lü

tirar roupa

uilü-nde-tagü

colocar colar

uilü-ki-tagü

tirar colar

 

 

imbuta-te-lü

dar remédio

ogo-te-gagü

moquear

anga-te-gagü

pintar com jenipapo

agihisu-te-lü

pintar a testa com urucum

akunga-te-lü

procurar alma

 

Vi

 

ajo-tuN-tagü > ajotundagü

ajo-tu

ajo-tu-hügü > ajotühügü

namorar

ege-tsuN-tagü

estar com medo

tilisinhüki-nguN-tagü  - fazer lisinhü

uteninhüki-nguN-tagü - fumar

 

 

 

 

 

umutuN-ti-lü

florescer

hingankgu-ti-tagü  - suar

amatso-ti-tagü

menstruar

hitse-ti-lü

peidar

 

 

 

 

Cada um dos verbalizadores tem uma semântica própria, embora extremamente abstrata e de difícil (mas possível) definição, e se acrescenta a raízes a-categoriais na projeção das estruturas frasais (na sintaxe). Para uma descrição e análise mais detalhada desses aspectos pode ser consultada a dissertação de mestrado de Mara Santos "Morfologia Kuikuro: as categorias ‘nome’ e ‘verbo’ e os processos de transitivização e intransitivização" (Lingüística, UFRJ).

3. SINTAXE DA CONSTRUÇÃO FRASAL

3.1 Ordem de constituintes e marcas de caso:

O alinhamento no que concerne a marcação morfológica de caso nominal e no que concerne a ordem básica (mais freqüente e pragmaticamente neutra) é ergativo, como ilustram os exemplos abaixo. Utilizamos os rótulos S para o argumento único de verbo monoargumental (intransitivo), A para o participante com papel temático de "agente", ou, melhor para o caso Kuikuro, causa originária ou ponto inicial da ação, e P para o argumento interno do verbo biargumental e com papel temático de Paciente (na maioria dos casos). Tais rótulos servem apenas para a identificação dos argumentos, cujo status sintático (sujeito ou objeto, argumento externo ou interno) não decorre automaticamente do papel temático a eles atribuído. Observe-se que o A é sempre marcado pela posposição heke, após o nome pleno ou aos proclíticos marcadores de pessoa:

Estrutura superficial da frase com verbo monoargumental (intransitivo):

(X) (Y) S V (Y) (X)

X: circunstancial    Y: partículas, dêiticos-cópula

1.   INTR     Argumento V

     a.    kaFaiha  katsuN-taFö           o branco trabalhava/está trabalhando

          branco trabalhar-CONT

     b.   tsue   i-katsuN-taFö             ele trabalhava/está trabalhando muito

          muito 3-trabalhar-CONT

     c.    tsue  i-katsuN-taFö-ko         eles estão trabalhando muito

                                             PL

     d.   tsue  u-katsuN-taFö             eu estou trabalhando muito

                   1-

Estrutura superficial da frase com verbo biargumental (transitivo):

(X)  PV (Y)  Aheke                   Aheke (Y)  PV  (X)

X: circunstancial    Y: partículas, dêiticos-cópula

2.  TR      Paciente V Agente / APV

    a.     kuk-aki-sü             ta-lüingo      leha      kagaiha-heke      

          1INCL-língua-REL   escutar-FUT   CMPL  branco-ERG

           o branco escutará/entenderá a nossa língua

    b.    kagaiha-heke leha kuk-aki-sü  ta-lüingo leha 

    c.     i-ta-lüingo        leha    kagaiha-heke      o branco a escutará/entenderá

          3-escutar-FUT CMPL  branco-ERG

    d.    kagaiha-heke i-ta-lüingo leha  

    e.     i-ta-lüingo leha   i-heke                       ele a escutará/entenderá

                                        3-ERG

    f.     u-ta-lüingo       leha    i-heke, kagaiha-heke    ele me escutará/entenderá

          1-escutarr-FUT CMPL  3-ERG  branco-ERG

 4.a      te-lü-ko         leha                              eles se foram

          3-ir-PONT-PL CMPL

    b.    ingi-lü-ko         leha     u-heke              eu os vi

          3ver-PONT-PL CMPL 1-ERG

3.2 O paralelismo estrutural entre as construções S/PV, NN (genitiva), PospN

Em Kuikuro, língua de núcleo à direita ou final, encontramos a expressão de uma mesma relação argumento-núcleo, quer seja o núcleo da construção representado por um verbo (PV/SV) ou um nome ou uma posposição:

3.         [ekege tetagü]   (-ta-gü)                      a onça está indo

          onça     ir-CONT

           [kanga engetagü]  kangamuke heke

          peixe comer-CONT criança       ERG

           [ekege  tapügü]                                  a pata/pegada da onça

          onça      pé-REL

           kagaiha                                              caraïba (branco)

           [kagaiha kaenga]                                perto do caraiba 

O argumento e o núcleo que o rege formam uma unidade fonológica: o acento, normalmente na penúltima sílaba da palavra, se desloca para a última sílaba do argumento absolutivo que precede o verbo e se torna o acento principal da unidade SV ou PV. Poderíamos chamar este fenômeno de ‘incorporação’, apesar de tratar-se apenas de um fato que reflete a sensibilidade da interpretação fonológica à relação sintática básica, primordial, e não um fato de incorporação sintática. Nenhum elemento pode ser inserido entre núcleo e argumento direto.

3.3  Possibilidade de posição não-canônica do argumento Paciente de Vtr :

O P de um verbo transitivo pode ocorrer em posição pós-verbal com o "modo" "passado" (cognato de formas participiais ou gerundivas em outras línguas karib); note-se a ausência de prefixos pessoais, a presença do prefixo t- (com seus alomorfes tü-, tu- condicionados por harmonia vocálica e dependendo da classe morfológica da raiz verbal), além do sufixo glosado como ‘passado’
(-ti, -si, -tsi, -i, ou deslocamento do acento para a última sílaba da raiz). O prefixo é homófono do prefixo "reflexivo"; o deslocamento do acento mostraria a existência de um sufixo na representação subjacente que apenas torna a última sílaba da raiz mais pesada (vogal longa?). A forma do verbo '‘passado'’ parece não possuir uma flexão, ou seja, ser de natureza não finita, dada a ausência de marcas de pessoa e de aspecto continuativo ou pontual. Quanto ao seu sentido, o ‘passado’ tem valor temporal de passado recente ou imediato e aspectual de completivo/perfectivo, algo que acabou de acontecer. Embora possa ser usado como verbo principal, ele tem sentido de dependência ou anterioridade temporal (ou lógica) de um outro enunciado anterior, seja este um momento precedente de uma sucessão de eventos ou uma pergunta.

4.         t-etsuhe-ti                   leha      u-engü-pe, u-tahaku-gu-pe         

          PAS-quebrarINTR-PAS CMPL 1-posse-ex, 1-arco-REL-ex

        quebrou, minha posse, meu arco

Mesmo ocorrendo antes do verbo, a preservação do acento lexical em P e a possibilidade de elementos se interporem entre este e V, mostra que ele não forma uma unidade fonológica com o verbo marcado pelo aspecto "passado":

5.         embuta leha    t-ili-si               uheke              Já bebi o remédio

           [e’mputa]

          remédio CMPL PAS-beber-PAS 1-ERG

Com certos verbos, definidos como de alta transitividade, na ausência de P nome pleno, temos um prefixo glosado como OBJ, marcador de Objeto genérico, que não deve ser confundido com o marcador de Paciente (ng-, MO) nos verbos de-ergativizados (ver seção 2.9):

6.         t-uhu-tagü-ha            ege-i,   tue-lü                uhu-tagü    egei      i-heke

          OBJ-saber-CONT-ENF D-COP OBJmatar-PONT saber-CONT D-COP 3-ERG

           (Ele) o sabia, ele sabia que o iam matar ( que ia ser morto / da sua morte)

A ausência de P em sua posição canônica imediatamente antes do verbo determina, fora o caso do ‘Passado’, a de-ergativização da construção (ver seção 2.9).

3.4  Omissão do A

2.4.1 A não especificado ou genérico

O A (normalmente marcado) pode ser omitido sem causar mudanças de valência do verbo, como ocorre nos ‘textos"(orais) de tipo procedural (descrição ou explanação de alguma atividade):

7.         lepene  kwigi     hihi- jü ....                 depois descasca-se a mandioca ...

          depois mandioca descascar-PONT

2.4.2  Em subordinadas

O A é omitido quando coreferente com o sujeito do verbo principal:

8.         u-te-lü      akatsege apaju-ko ingi-lü-inha   

          1-ir-PONT ADV          pai-PL        ver-PONT-FIN

          eu vou mesmo para ver meus pais

3.5  Não há nominalização quando um "verbo" é argumento

O verbo principal de uma frase pode ter argumentos de tipo sentencial; estes ocorrem com o verbo flexionado pelo aspecto pontual e sem que ele apresente qualquer marca de nominalização:

9.         hugompo  e-i-nhügü  konige             você ficou no meio da aldeia ontem

          no/meio/da/aldeia 2-estar-PONT ontem

10.       o-kotu  leha                                     você ficou com raiva

          2-raiva/enraivecerPONT  CMPL

11.       e-i-nhügü heke u-kotu-hüngü-i u-üi-lü, o-kotu heke leha, konige

2--ser/estar-PONT ERG 1-raiva/enraivecer-NEG 1-fazer-PONT, 2-raiva/enraivecer ERG CMPL ontem

           o seu estar me fez triste, o fato de você estar com raiva, ontem

3.6 A ‘cópula’ -i : uma ‘âncora predicativa’?

Algumas observações são necessárias acerca das construções que chamamos provisoriamente de ‘copulares’; nestas ocorre o enclítico ou sufixo –i, glosado como COP (‘cópula’), em verbos ou nomes. Em primeiro lugar, notamos a ausência da ‘cópula’nas construções descritivas estativas e a sua presença obrigatória nas construções equativas:

Não nas estativas:

12.       u-ügü-lü       ante u-agisu-gu ata          o anzol está aqui na minha bolsa

          1-anzol-REL aqui 1-bolsa-Rel dentro

Sim nas equativas

13.       u-hisuü-gü     ekise-i                          ele é meu irmão

          1-irmão-REL  ele-Cop

O complexo dêitico-cópula é um dos fatos mais instigantes do Kuikuro. O dêitico pode ser ou ige, "proximidade ao falante", ou ege, "distância do falante. A seqüência dêitico mais sufixo -i ocorre na maioria dos enunciados efetivamente realizados em contexto. Sua ausência é significativa nas frases coletadas em sessões de elicitação, mostrando a sua de-contextualização. O valor de força pragmática é claro, mas precisa considerar também o valor gramatical. Assim, nossa hipótese é a de que o complexo dêitico-cópula funciona como uma espécie de âncora no hic et nunc da enunciação de uma predicação que, sem ele, permanece apenas virtual. Sua quase necessidade pode ser imputada ao fraco peso predicacional do verbo, ou melhor, da palavra à qual atribuímos a função de verbo na frase, dada a flexão aspectual reduzida ao essencial da oposição pontual versus continuativo e dada a fronteira nada nítida entre construção nominal e construção verbal. É uma hipótese que precisa ser aprofundada e avaliada, empírica e teoricamente. Lembramos que as posições de ocorrência desse complexo estão nas fronteiras da seqüência S/P-V, e preferencialmente após o primeiro constituinte, lugar típico das partículas epistêmicas, aspectuais, modalizadoras.

Eis alguns exemplos:

14.       tolo     itsu      heke ege-i     u-impaki-lü    

          passaro barulho ERG  D-COP 1-acordar-PONT

           o piar  dos pássaros me acordou

15.       ekise heke-ha     ige-i     t-umuku-gu      tüi-lü tü-angakaga-ati

          ele       ERG-ENF D-COP RFL-filho-REL botar-PONT RFL-colo-INES

           ela botou seu filho no colo

16.       is-ünkgü-ta-ko        leha     ege-i          eles estão dormindo

          3-dormir-CONT-PL CMPL D-COP

A ‘cópula’-i é obrigatória nas construções negativas com a partícula inhalü, cujo escopo é inteiro enunciado, e nas interrogativas de argumento, sufixando-se ao verbo, seja ele nominalizado (interrogativas de argumento agente) ou não (interrogativas de Paciente):

Com negação

17.       inhalü  aki-sü  i-ta-lü-i  u-heke             eu não entendo a tua língua

          NEG/palavra-REL/3-ouvir-PONT-COP/1-ERG

Nas interrogativas de argumento

18.       tü (ma)  kanga  enge-ni-i                     quem comeu?

          QU(EP) peixe    comer-NMLZ-COP

19.       tü (ma)  e-ng-enge-tagü-i                    o que você está comendo?

          QU(EP)  2-MO-comer-CONT-COP

A ‘cópula’ está presente nos complementos de verbos intransitivos:

Complemento de intransitivos:

20.       is-akiti-ngo  pape ingi-lü-i                   ele gosta de ler/ver o papel

          3-gostar-SUBS(NMLZ)/papel ver-PONT-COP

21.       inh-anguN-ta-ko   Jamugikumalu-i       elas estão dançando Jamugikumalu

          3-dançar-CONT-PL   J.

3.7 Algumas considerações sobre a semântica de heke (marca de ergativo, causa externa)

(i) A posposição heke marca a causa externa, ponto de origem ou inicial do evento ou da ação. Trata-se de um argumento externo, não obrigatório e que pode ser omitido. A causa pode não ser conceitualizada como nós a conceitualizamos, como se vê nos exemplos abaixo, onde o "agente" do "dizer" é o destinatário e não o emissor, o locutor, e onde quem sonha não é o "agente"do sonhar, sendo o paciente de quem o faz sonhar:

22.       .... Aulukuma  nügü i-heke                 ... Aulukuma lhe disse 

                 A.                  dizer 3-ERG                     (lit.ele fez Aulukuma dzer)

23.       uama e-ki-ta-ko             u-heke           o que vocês estão me dizendo?

          QU      2-dizer-CONT-PL 1-ERG

24.       tü-heke-ma    e-ki-tagü                       com quem você fala?

          QU-ERG-EV  2-dzer-CONT

25        u-oniki-jö           u-ikene   heke            sonhei com minha irmã mais nova

          m1-sonhar-PONT 1-irmã     ERG

(ii)      A noção de ‘causa’ não implica nenhum traço de animacidade e/ou volicionalidade:

27.       tunga-heke  leha  ate-lü-ko leha           a água as circundou

          água-ERG CMPL circundar-PONT-PL CMPL

28.       tagü heke u-e-tagü                              estou com fome

          fome ERG 1-matar                                      (lit. a fome está me matando)

29.       u-ingunkgingu heke-ha     ege-i    u-i-tsagü ige koko

          1-pensamento    ERG-ENF D-COP 1-ser         D    noite

           pensei esta noite (lit. meu pensamento fez meu ser/estar esta noite)

(iii)     Heke é, também, um locativo significando distância entre dois pontos no espaço:

30.       ete     ihaki postu-heke                       a aldeia é longe  do Posto

          aldeia longe Posto-LOC

(iv)     Encontramos heke utilizado com outros sentidos, como o de destacar, tornar saliente, enfocar:

31.            kuge-hüngü-ki    akatsige eitahoki-tagü,     kuk-ingajomo heke

          gente-NEG-INST mesmo   3namorar-CONT 12-irmãs              ERG

ão era um ser humano aquele com quem elas namoravam, são as  nossas irmãs

32.       kagaiha  ese-i            kuk-itsake-tagü-ko heke

          caraïba     aquele-COP 12-cortar-CONT-PL ERG

           são os brancos, são os que nos golpeam

Veja-se a construção abaixo de foco no agente (uheke), utilizada como meio de modalizar a verdade de uma asserção marcando o testemunho direto:

33.       konige ute-lü museu-na, titá u-heke u-aminkgu-sü hogi-jü u-heke

          ontem/1-ir-PNTC/museu-AL/lá 1-ERG/1-amigo-REL/achar-PNTC/1-ERG

           ontem fui ao Museu, é verdade mesmo que lá encontrei o meu amigo

(v)     Nas construções interrogativas de argumento S (verbo intransitivo ou intransitivizado), heke marca uma alternativa à nominalização estativa do verbo (t-V-nhü). Observe-se que o verbo apresenta sufixo nominalizador, mas a flexão aspectual, mas que ele é prefixado com t-, para o qual não identificamos glosa satisfatória até o momento, mas que por si só pode ser considerado um tipo de nominalizador (estativo). O problema é a aparente contradição na co-ocorrência de um nominalizador e de uma flexão verbal, algo que pode instigar mais uma vez a dúvida sobre a distinção nome/verbo em Kuikuro. Por outro lado, vemos que interrogação e foco são construções relacionadas:

34.       tü t-atsaku-nhü-i                                 quem  corre?

          QU NMLZ-corerr-NMLZ-COP

           tü t-atsaku-tagü heke                          quem está correndo?

          QU NMLZ-correr-CONT ERG

           tü t-atsaku-lü heke                              quem correu?

          QU  NMLZ-correr-PONT ERG

           tü t-at-agi-lü heke                               quem flechou?

          QU NMLZ-INTR-jogar-PONT ERG

3.8 Mudanças de valência

3.8.1 Antipassiva?

Não existe propriamente uma construção de tipo ‘antipassiva’, mas sim a possibilidade de uma construção que chamaríamos de "foco no Agente" (e saliência do evento/ação), onde o Paciente indefinido aparece "demovido" para uma posição de adjunto opcional, marcado pelo sufixo ‘instrumental’-ki. Não é uma construção freqüente; observe-se o prefixo ‘reflexivo’ típico da intransitivização (ver seção):

35.       kumungketu-heke  pape ahehi-tsagü    a criança está escrevendo a carta

          criança-ERG             papel escrever-CONT

           kumunkgketu t-ahehi-tsagü (pape-ki)   a criança escreve (uma carta)

              criança              RFL-escrever-CONT (papel-INSTR)

Não há antipassiva com a função de manter o ‘pivot’ S/P em coordenações e/ou subordinações, do tipo descrito por Dixon para o Warlpiri.

3.8.2 Falsa intransitivização ou de-ergativização:

Chamamos de de-ergativas as construções onde o verbo é aparentemente intransitivizado, apresentando o prefixo MO (marcador de objeto) logo antes da raiz, podendo ser precedido pelos proclíticos de pessoa. O verbo parece ser monoargumental, sendo que é o agente/causa a ser realizado como absolutivo. O paciente se encontra fora do escopo argumental do verbo, ou seja, não é seu argumento interno (absolutivo). Ele ou está em posição de adjunto, ou o MO indica que seu coreferente é argumento do verbo principal.

Note-se que na construção de-ergativa, o ‘paciente’ pode ocorrer após o verbo e que se ocorre antes do verbo ele manifesta seu acento lexical, sem entrar em qualquer relação sintática com o verbo (incorporação fonológica já abordada). Poderíamos considerar essas construções de-ergativas como sendo de foco no agente. De qualquer maneira, trata-se de um fato de natureza sintática e como tal deve ser examinado; discordamos da análise semântico-pragmático-funcionalista de Dixon desses dados Kuikuro (condicionamento discursivo). É claro que é fundamental descrever as motivações extra-sintáticas e os contextos, mas sem fazer destes explicações únicas e auto-suficientes. Sintaticamente, pensamos que o MO seja um elemento que absorve papel temático (Paciente) mas não tem força gramatical  para absorver o Caso estrutural que o verbo tem a dar, uma espécie de vestígio (de algo que foi movido de sua posição canônica e para fora do complexo verbal, como é o caso do Paciente/Objeto interno, e com o qual está coindexado). Tratar-se-ia de um  vestígio fonologicamente realizado. Assim, a construção de-ergativa não poderia ser vista como simplesmente intransitiva; a língua Kuikuro faz esta distinção, marcando esta última com o prefixo ‘reflexivo’ e a de-ergativa com outro afixo (ng- , MO).

Vejamos as situações em que ocorre a de-ergativização:

(i) Com o modo intencional

Funciona uma hierarquia de referência do tipo 12 >1>2>13, 3. Com agente/causa de primeira e paciente de terceira pessoa, as construções ergativa e de-ergativa são ambas possíveis:

36.       tahitse igoki-tai u-heke                eu vou depenar (penas do rabo) a arara

          arara/depenar-INTC/1-ERG

37.       tahitse nh-ipui-tai                        eu vou depenar (plumas) a arara

          arara 1/MO-depenar-INTC

38.       kogetsi  u-ng-uhi-tsai  tunga        demain j'irai chercher l'eau

          demain/1-MO-chercher-INTC/eau

           kogetsi tunga  uhi-tsai  u-heke     demain j'irai chercher l'eau

          demain eau/chercher-INTC/1-ERG

Com agente/causa de terceira ou de primeira plural exclusiva, só é possível a construção ergativa:

39.       akinha  iha-tai  ti-heke  e-inha          nous allons te raconter une histoire

          histoire montrer-INTC 1EXC-ERG 2-pour

40.       akinha  iha-tai  i-heke  e-inha           il va te raconter une histoire

          histoire montrer-INTC 3-ERG 2-pour

Com agente/causa e paciente de primeira ou segunda pessoa, é preferível a construção de-ergativa:

41.       nh-uhi-tsai  hoho                            je vais te chercher

          1/2MO-chercher-INTC ENF

42.       nh-uhi-tsai  hoho öøele                    je vais le chercher

          MO-chercher-INTC lui

43.       ilá atsange ku-nh-uhi-tsamini           nous irons le chercher lá-bas

          ENF   1INC-MO-chercher-INTC/PL

44.  e-ihe-tinhi hoho ke-ng-uhi-tsai, ku-nh-i-tai e-ihe-tomi i-heke, nh-i-tai üngele

2-segurar-NOMLZ ENF 12-MO-procurar-INTC, 12-MO-trazer-INTC          
2-segurar-FIN 3-ERG, 1/3/MO-trazer-INTC ele

Nós vamos procurar aquela que te segura, nós vamos trazê-la para te segurar, eu vou procurá-la

(ii)      Com o modo hortativo é obrigatória, já que o agente/causa é sempre de primeira pessoa inclusiva:

45.       ku-ng-api-ni  ekise                          batamos nele!

          12-MO-bater-HORT ele

46.       kuk-angu-ni                                   dancemos!

          12-dançar-HORT

47.       kanga ku-ng-hule-ni  (kanga)           vamos assar o peixe!

          peixe 12-MO-assar-HORT

48.       kuk-epule-ni hoho                          vamos assar!

          12-assar-HORT ENF

49.       ku-ni-konkgi-ni-ha ku-hi-sü             vamos lavar nosso irmão!

          12-MO-lavar-HORT-ENF/1-irmão-REL

(iii)     O mesmo vale para o modo imperativo, onde a interação se dá entre as pessoas do discurso:

50.       e-ng-enge-ke-ha  kanga                   coma o peixe!

          2-MO-comer-IMP-ENF peixe

51.       iku-gu e-ng-inguki-tsüe                   cuidem da bebida!

          bebida-REL 2-MO-cuidar-IMP/PL

52.       tü-ha-ke hoho                                faça-o!

          MO-fazer-IMP ENF

53.       api-he  ekise                                  bata nele!

          bater-IMP ele

54.       e-tinhampa-ke-ha                           coma!

          2-comer-IMP-ENF

(iv)     As relativas são sempre nominalizações que funcionam como modificadores de argumentos; estão quase sempre em posição final, deslocadas da proximidade ao argumento que modificam. Vejamos uma relativa de S nominalizada por afixação que produz um adposto com o sentido de "aquele que está no estado de", ou "aquele que tem a propriedade de"[1]:

55.       kagaiha [tü-te-nhü]  ingi-lü  u-heke      eu vi o branco que partiu

          caraïba [NMLZ-ir-NMLZ] ver-PONT 1-ERG

Agora, uma relativa de A, com nominalização agentiva:

56.       kuge ingi-lü u-heke  [kagaiha api-ni(müngü)]

          gente ver-PONT 1-ERG [caraïba bater-NOM]

        eu vi as pessoas que bateram no branco

57.       e-inhampa-ni-ha itiha-ne-ke               faça rir aquelas que te alimentam!

          2-alimentar-NOMLZ-ENF rir-TR-IMP

58.       ungua tsö-naha ige-i e-inhango-ko uhi-nhi tüi-tagü e-heke-ni

          QU EP-EP D-COP 2-alimento-PL procurar-NMLZ fazer-CONT 2-ERG-PL

           O que vocês fazem  daqueles que procuram o seu alimento?

As relativas de objeto se caracterizam por serem construções de-ergativizadas e semi-nominalizadas graças ao sufixo "perfectivo"; note-se o prefixo MO:

59.       kotsogo  api-lü  kagaiha-heke             o branco bateu no cachorro

          cachorro bater-PONT caraïba-ERG

60.       kuge  te-lü  leha  [kagaiha ng-api-pügü]     

          gente ir-PONT CMPL [caraïba MO-bater-PERF]

          as pessoas em que o branco bateu foram embora

61.       tü-ng-hitsi-lü-ko-ki ege-i i-sekomi-lü i-heke-ni                 

          REFL-MO-descascar-PONT-PL D-COP 3-jogar/contra- 3-ERG-PL

          Elas jogaram contra ele aquilo que elas tinham descascado

62.       ihasü hoho ekise-i ohotugu-i ng-iku-ngalü-i 

          irmã ENF aquele-COP primeiro-COP MO-ter/sexo-HAB-COP

          era a irmã mais nova aquela com que ele fazia sexo primeiro

As construções interrogativas seguem o mesmo padrão das relativas, apresentando, então, digamos, um esquema que pode ser visto como tripartido (S/A/P) do ponto de vista das meras formas afixais, ou bipartido (A=S/P) do ponto de vista das estratégias sintáticas (simples nominalização versus de-ergativização).

3.9 Causativização: 

Não há, em Kuikuro, processos morfológicos para a causativização tais como existem em outras línguas. Um verbo transitivo (biargumental, onde A é marcado) não pode ser causativizado, já que a própria "ergatividade" expressa (morfo)sintaticamente o traço de causa externa. O verbo intransitivo (monoargumental), cujo argumento poderia ser interpretado como causa interna, como no caso dos verbos de estado mental ou emocional, ou os de processos corporais, pode ser transitivizado, introduzindo um argumento externo (SN heke) causa externa, através dos sufixos de primeira posição -ne- e -ki- (e seus alomorfes).

63.       t-umuku-gu  ünkgkö-ne-tagü  itão heke        

          RFL-filho-REL dormir-TR-CONT mulher ERG

          a mulher está adormecendo seu filho

Por outro lado, são razoavelmente produtivas as construções analíticas para expressar causatividade, como no exemplo abaixo utilizando o verbo üi, "fazer imaterial, transformar":

64.       e-ünkgü-toho  e-üi-tagü u-heke           eu estou te adormence ndo

          2-dormir-NMLZ 2-fazer-CONT 1-ERG

Vejamos outros exemplos:

65.       u-lehunkgi-tagü                                  eu estou respirando

          1-respirar-CONT

           vik heke u-lehunnkgi-ki-tagü               o Vick me faz respirar

                 ERG  1-respirar-TR-CONT

           tiha heke u-igehungu- tu-nügü  

          resina ERG 1-respiro dar-PONT

          tiha (resina) me fez respira (lit. me deu o respiro)

Ver também a seção para os fenômenos de transitivização ou causativização.


4. MORFOLOGIA E SINTAXE DA MUDANÇA DE VALÊNCIA:      
INTRANSITIVIZAÇÃO E TRANSITIVIZAÇÃO

Bruna FRANCHETTO e Mara SANTOS

Os processos de intransitivização e de transitivização, junto com os de verbalização de raízes a-categoriais e o jogo das classes morfológicas flexionais de aspecto, representam o domínio mais complexo e interessante do Kuikuro. A morfologia é aqui entendida como parte integrante da sintaxe. Os dados e a descrição oferecidos são extraídos do trabalho de pesquisa de Mara Santos, que resultou na dissertação de mestrado "Morfologia Kuikuro: as categorias ‘nome’ e ‘verbo’ e os processos de transitivização e intransitivização", defendida no curso de pós-graduação em Lingüística da UFRJ em dezembro de 2002. Não consta desta seção a parte contendo as hipóteses interpretativas baseadas na Teoria Morfologia Distribuída.

4.1 Intransitivização

O quadro abaixo sintetiza os processos de intransitivização na língua Kuikuro:

quadro 03

Pessoa

I- raízes
iniciadas
por V

II- raízes

iniciadas

por C g>l

III- raízes

iniciadas

por C h>p

IV- raízes

iniciadas

por iC

V- raízes

iniciadas

por V ü/u

VI- raízes

iniciadas

por C k>ts

1

u-t-

u-

u-

ug-

um-

u-

2/3

a-t-; e-t-; o-t-

a-;e-;o-

a-, e-, o-

ag-;eg-;og-

am-;em-;om-

a-;e-;o-

1INC

tis- (a-;e-;o-) t-

tsih- (a-;e-;o-) t-

tis (a-;e-;o-)-

tsih (a-;e-;o-)-

tis (a-;e-;o-)-

tsih (a-;e-;o-)

tis (a-;e-;o-) g-

tsih (a-;e-;o-)g-

tis (a-;e-;o-)m-

tsih(a-;e-;o-)m-

tis(a-;e-;o-)-

tsih(a-;e-;o-)-

1EXC

kuk- (a-; e-;o-) t-

kuk(a-; e-;o-)-

kuk (a-; e-;o-)-

kuk(a-; e-;o-)g-

Kuk(a-; e-;o-)m-

kuk(a-; e-;o-)

PL

kuket- V -ko

ku-V -ko

kuk- V –ko

kukeg- V -ko

Kuk(a-; e-;o-)m-

kuk(a-; e-;o-)

O Grupo I contém o processo mais recorrente, onde -t- é explicitamente a forma do reflexivo, mas pode expressar a oposição causativo/anti-causativo:

           Tr                                                                    Int.der

1.         isi heke t-umuku-gu agike-nügü                          at-agike-nügü

          mãe ERG REFL-filho-REL cortar cabelo-PONT        3/INT-cortar cabelo-PONT

           "a mãe cortou os cabelos do seu filho"              "ele cortou os cabelos"

           Tr                                                             Int.der

2.         ahulu ahumitsi-lü  i-heke                             ahulu at-ahumitsi-pügü

          porta abrir-PONT 3-ERG                                     porta INT-abrir-PERF

        "ele abriu a porta"                                    "a porta já está aberta"

Grupo IV:

           Tr                                                             Int.der

 3.        u-itsi-tagü katsogo heke                             ug-itsi-tagü

          1-morder-CONT cachorro ERG                          1-morder-CONT 

           "o cachorro está me mordendo"                "eu estou me mordendo"

Grupo V:

           Tr                                                             Int.der

4.         isi heke kagamuke ütati-tsagü                     um-ütati-tsagü

  mãe ERG criança lavar boca-CONT                    1INT-lavar bocar-CONT                

           "a mãe está lavando a boca da criança"             "estou lavando a minha boca"

Os grupo II, III e VI representam a ocorrência do que chamamos de alternância causativo (transitivo) e anti-causativo (intransitivo). Os pares contrastam pela qualidade da consoante inicial da raiz (indícios de condicionamento fonológico):

g/l:

           Tr                                                             Intr

5.         u-lamaki-lü                                                u-gamaki-lü iheke   

          1-cair-PONT                                                          1-derrubar-PONT 3-ERG

           "eu cai"                                                    "ele me derrubou (me fez cair)"

h > p (condicionamento fonológico, Franchetto 1995): 

           Tr                                                             Int (der)

6.         apa heke u-hihi-jü konige                           u-pihi-tsagü

          pai ERG 1-aranhar-PONT ontem                         1-aranhar-CONT

           "ontem, meu pai me arranhou"                 " eu estou me arranhando"

k > ts (condicionamento fonológico, Franchetto 1995):

           Tr                                                             Int.(der)

7.         kagamuke heke itige kuhi-jü                        u-tsuhi-tsagü

          criança  ERG    rede  molhar-PONT                    1-molhar-CONT

           "a criança molhou a rede"                        "eu me molhei"

I          Para tratarmos do processo de intransitivização, vamos nos ater ao processo mais recorrente na língua, o que ocorre com a prefixação do morfema Vt- .

Os verbos basicamente transitivos têm como versão intransitiva verbos da classe dos inacusativos, com semântica incoativa (passar para o estado de) e uma morfologia reflexiva. O processo de intransitivização se dá através do acréscimo de prefixos, causando uma redução dos argumentos (o que era objeto da transitiva passa a ser sujeito na versão intransitiva). Esse processo vai resultar em duas subclasses de verbos:

i) Verbos intransitivizados reflexivos:

"cuidar"   inkguki-

           Tr                                                             Int.der

8.         isi heke kangamuke inkguki-tagü                 et-inkguki-tagü

          mãe ERG criança cuidar-CONT                           3/INT-cuidar-CONT

           "a mãe cuida da criança"                         "Ele cuida de se mesmo"

"cortar cabelos"  agike-

           Tr                                                             Int.der

9.         isi heke t-umuku-gu agike-nügü                  at-agike-nügü

             mãe ERG REFL-filho-REL cortar/cabelo-PONT           3/INT-cortar/cabelo-PONT

           "a mãe cortou os cabelos do seu filho"      "ele cortou os cabelos"

"perder"                                                               anhe-

           Tr                                                             Int.der

10.       u-livro-sü anhe-nügü u-heke                       u-livro-sü  at-anhe-nügü

          1-livro-REL perder-PONT 1-ERG                      1-livro-REL  INT-perder-PONT

           "eu perdi meu livro"                                  "o livro (se) perdeu"

                                                                            ekise at-anhe-nügü

                                                                                          3p  INT-perder-PONT

                                                                            "ele se perdeu"

Os verbos com reflexividade inerente (e que podem ser transitivizados com -ne) não admitem et- que carrega consigo uma morfologia reflexiva. Observamos essa restrição na construção abaixo.

11        *ekise at-aka-ne-nügü

          ele INT-sentar-TR-PONT

           "ele se obrigou a sentar"

ii) verbos intransitivizados não-reflexivos (incoativos):

"abrir" ahumitsi-

           Tr                                                     Int.der

12.       ahulu ahumitsi-lü  i-heke                     ahulu at-ahumitsi-pügü

          porta abrir-PONT 3-ERG                            porta INT-abrir-PERF

           "ele abriu a porta"                            "a porta se abriu/está aberta"

13.       ekise heke ahulu ahumitsi-lü                ahulu at-ahumitsi-lü

          ele ERF porta abrir-PONT                          porta INT-abrir-PONT

           "ele abriu a porta"                            "a porta se abriu (pontual)"

"quebrar (batendo com pau)", "rachar"           agugi-

           Tr                                                     Int.der

14.       ahukugu agugi-jü u-heke                     ahukugu at-agugi-jü

          panela rachar-PONT                                    panela INT-rachar-PONT

           "eu rachei a panela"                         "a panela rachou"

"apagar"                                                       unhe-

           Tr                                                     Int.der

15.       ito unhe-nügü u-heke                          ito et-unhe-nügü

          fogo apagar-PONT 1-ERG                          fogo INT-apagar-PONT

           "eu apaguei o fogo"                          "o fogo se apagou"

"derramar"       hapi-

           Tr                                                     Int.der

16.       Maria heke tunga hapi-jü                    tunga atsapi-jü  leha

          Maria ERG água derramar-PONT               água  INT/derramar-PONT CMPL

           "Mara derramou a água"                 "a água derramou"

Alternâncias transitivo/intransitivo sem adição de morfema, mas com alternância de verbalizadores com traços de transitividade (mudança de estado com causa externa) ou intransitividade (mudança de estado com causa interna):

           Int                                                     Tr.der

17.       u-haindi-lü leha                                  u-ügünu heke u-haingi-jü               

          1-envelhecerCMPL                                     1-doença ERG 1-envelhecer-PONT

           "eu  envelheci"                                  "a doença me fez envelhecer"

           Int                                                     Tr.der

18.       u-aguti-tagü                                       u-ügünü heke u-aguki-pügü       

          1-emagrecer-CONT                                     1-doença ERG 1-emagrecer-PERF

         "eu estou emagrecendo"                      "a doença me emagreceu"

           Int                                               Tr.der

 19.      u-egetsu-ndagü                            u-katsü heke u-egetsi-tsagü

          1-preguiça-CONT                                 1-trabalho ERG 1-preguiça-CONT

           "eu estou com preguiça"              "o meu trabalho me faz sentir preguiça"

Vale a pena acrescentar mais alguns exemplos da produtividade da oposição e relação entre causativo e anti-causativo. Note-se que essa alternância é abundantemente utilizada, por exemplo, nas repetições paralelísticas da narrativa e de outros gêneros de arte verbal, com o efeito de deslocar o ponto de vista ou o olhar (mental) que apreende o evento (Franchetto 2003):

Pares causativo/anti-causativo

sonhar

20.       u-oni-tuN-tagü ige  koko       (Vi)             eu sonhei a noite passada

          1-sonhar-CONT  DEIT noite

           u-oni-ki-jü  ige koko unho-heke   (Vt)      

          1-sonhar-PONT DEIT noite marido-ERG

          eu sonhei (com) meu marido a noite passada

cozinhar

21.       ilaN-tuN-tagü       (Vi)                             ela cozinha

          3cozinhar-CONT

           ala  ilaN-te-tagü  i-heke     (Vt)                  ela cozinha ala

                 cozinhar-CONT 3-ERG

acordar

22.       u-ahaki-lü  leha    (Vi)                              eu acordei

          1-acordar-PONT CMPL

           u-impaki-lü  leha  i-heke     (Vt)                ele me acordou

          1-acordar-PONT CMPL 3-ERG

23.       S italuN-tagü / P itankgi -tsagü A                 coçar

           S itaginhuN-tagü / P itaghinhi-tagü A           conversar

           S lamaki-tagü / P gamaki-tagü  A                 cair

           S gikutse-gagü /  P ikutse-gagü A                pintar

           S katsuN-tagü / P kasi-tagü      A                 trabalhar

           S  itiguN-tagü / P itihane- tagü  A                rir

24.       kügahato kuhe-nügü i-heke       (Vt)             ele quebrou o gravador

          gravador quebrar-PONT 3-ERG

           kügahato etsuhe-nügü leha / t-etsuhe-ti leha  (Vi)    o gravador quebrou

          gravador quebrar-PONT CMPL/PAS-casser-PAS CMPL

25.        et-ingü-ki-lü leha                               ele tirou sua própria roupa

          3INTR-envolucro-VERB(tirar)-PONT

           u-t-ilüN-te-tagü                                  eu coloco meu colar

          1-INTR-colar-VERB(colocar)-CONT

           u-t-ilü-ki-tagü                                     eu tiro meu colar

          1-INTR-colar-VERB(tirar)-CONT

           u-lakumi-tsagü                                   eu coloco minhas tornozeleiras

          1-tornozeleira-CONT

           u-lakumi-ti-tsagü                                eu tiro minhas tornozeleiras

          1-tornozeleira-VERB(tirar)-CONT

Encontra-se outro mecanismo de produção de alternâncias causativo/anti-causativo nas construções onde a contraparte intransitiva é dada pelo verbo construído pela verbalização de um sintagma posposicional formado por nome + instrumental. Como é característica geral da contraparte intransitiva (ou anti-causativa), o sentido dessas construções é que o P é interpretado como genérico, indefinido e é a causa (A), junto com o evento que ela determina, a estar em primeiro plano:

26.       teninhü  ugi-tsagü  hüati-heke  

          tabaco  soprar-CONT pajé-ERG

          os pajés estão fumando os cigarros (de tabaco)

           hüati teninhü-ki-nguN-tagü                     os pajés estão fumando

          pajé   tabaco-INST-VERB-CONT

27.       kaFahuku tüi-tagü u-heke heu-hinhe            

          cerca fazer-CONT 1-ERG queixada-NEG/FIN

        estou fazendo a cerca contra as queixadas

           u-kagahuku-ki-nguN-tagü  heu-hinhe      

          1-cerca-INST-VERB-CONT

          estou fazendo cerca contra as queixadas

28.       ehu ha- tagü  i-heke-ni                            estavam fazendo as canoas

          canoa fazer-CONT  3-ERG-Pl

           ehu-ki-nguN-tagü                                   estavam fazendo canoa

          canoa-INST-VERB-CONT

29.       ikine iki-tsagü  itão heke                       a mulher está fazendo o beijú

          beiju fazer/beiju-CONT mulher ERG

           itão ngikinhu-tuN- tagü                         a mulher está fazendo beijú

          mulher seu beiju-VERB-CONT 

4.2  Transitivização (ou causativização)

O quadro 04 mostra os processos de transitivização ou causativização em Kuikuro:

quadro 04

Aspec

Cont/

Pont/

 

I

-tagü

zero

 

II

-tagü

-nügü

 

 

III

-tagü

-lü

 

IV

-tsagü

-jü

 

V

-gagü

-lü

 

 

 

Tr.der

Com

-ne-/-ki-

 

 

 

 

 

 

angu-ne-nügü

Fazer dançar

aka-ne-nügü

fazer sentar

ije-ne-nügü

fazer nadar

alahi-ne-nügü

fazer abaixar

ahu-nhe-nügü

fazer encher

 

iniN-ki-tagü

fazer chorar

itongoN-ki-tagü

fazer tossir

 

 

IngunkginguN-ki-tsagü

fazer pensar

ukinhulu-ki-tsagü

fazer ter ciúmes

utehuhesu-ki-jü

fazer preocupar

 

 

 

 

Int

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Observe-se que os morfemas -ne-/-ki- selecionam uma restrita classe flexional, o morfema -ne- a classe flexional II,  o morfema -ki- a classe III e IV.

 


                                                                                               -ne-                                              -ki-

                                                                  S                             O                            O                                                S

 

Agente

Experienciador

tema/paciente

Causa/instrumento

Causa  mudança

+

_

_

+

Estado

Mental

+

+

_

_

– O quadro identifica os sufixos com os papéis temáticos que eles selecionam como:

O morfema transitivizador -ne- seleciona um sujeito agente (+causa mudança; +estado mental) e um objeto tema/paciente(-causa mudança; - estado mental), o morfema transitivizador -ki- seleciona sujeito agente (+causa mudança; +estado mental) e um objeto tema/paciente(-causa mudança; - estado mental), sujeito causa/instrumento (+causa mudança; -estado mental) e objeto experienciador(- causa mudança; +estado mental).

           Int    Tr.der

30.     ekise aka-nügü                          t-umuku-gu aka-ne-nügü i-heke

       ele sentar-PONT                               REF-filho-REL sentar-TR-PONT 3-ERG

         "ele sentou"                              "ele  sentou  o seu filho"

         *Sergio aka-nügü i-heke

       Sergio sentar-PONT 3-ERG

         "ele sentou Sergio."

31.     u-kae-nguN-tagü                       u-kae-ngu-ne-tagü i-heke

       1-sobre-VERB-CONT                     1-sobre-VERB-TR-CONT 3-ERG

33.     u-tehuhesu-tsagü                      ukasü heke u-tehuhesu-ki-jü

       1-preocupar-CONT                          3-trabalho-REL ERG 1-preocupar-TR-PONT

         "eu estou preocupada"             "o meu trabalho me  preocupa"

32.     i-muku-gu ünkgü-tagü               itao heke tumukugu  ünkgü-nge-tagü   

       3-filho-REL dormir-CONT             mulher ERG REFL-filho-REL dormir-TR-CONT

         o filho dela está dormindo       a mulher está fazendo dormir o seu filho


BIBLIOGRAFIA

Obs.:  Esta bibliografia inclui apenas os trabalhos produzidos sobre a língua Kuikuro. Estamos elaborando uma bibliografia contendo os trabalhos sobre ergatividade em teoria gerativa.

Capítulos de livros

FRANCHETTO, B.

1990  "Ergativity and Nominativity in Kuikúro and Other Carib Languages". D.Payne (org), Amazonian Linguistics. Studies in Lowland South American Languages. University of Texas Press, Austin (407-428).

1992  "O aparecimento dos caraíba": para uma história kuikúro e alto-xinguana". Manuela C.da Cunha (org.), História dos Índios no Brasil, Companhia das Letras, FAPESP, SMC, São Paulo. (339-356).

1993  "A celebração da história nos discursos cerimoniais kuikúro (Alto Xingu)". Eduardo Viveiros de Castro e Manuela Carneiro da Cunha (orgs.), Amazônia Etnologia e História Indígena, São Paulo, NHII/USP, FAPESP (95-116).

1995  "Processos Fonológicos em Kuikúro: uma Visão Auto-Segmental". Leo Wetzels (org), Estudos Fonológicos das Línguas Indígenas Brasileiras, Editora UFRJ, Rio de Janeiro, 1995.

2000  "Rencontres rituelles dans le Haut Xingu: la parole du chef". Aurore Becquelin Monod e Philippe Erikson (orgs), Les Rituels du Dialogue. Promenades ethnolinguistiques en terres amérindiennes. Nanterre: Societé d´Ethnologie  (481-510).

2000  "Escrever línguas indígenas: apropriação, domesticação, representações". Catálogo da Exposição "Os Índios, Nós". Museu Nacional de Etnologia, Lisboa (Portugal) (44-50)

2000  "Do encontro com os brancos". C. A. Ricardo (ed.), Povos Indígenas no Brasil, 1996-2000. São Paulo: Instituto Socioambiental (30-33)

2001  "Línguas e História no Alto Xingu". B. Franchetto e M. Heckenberger (orgs.), Os Povos do Alto Xingu. História e Cultura. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ (111-156)

2001  "Ele é dos outros. Gêneros de fala cantada entre os Kuikuro do Alto Xingu". C. N. Mattos, E. Travassos, F. T. de Medeiros (orgs), Ao encontro da palavra cantada: poesia, música e voz. 7 Letras/CNPq (40-52).

2002  "Céu, terra, homens. O Calendário Kuikuro". M. K. L. Ferreira (org.), Idéias Matemáticas de Povos Culturalmente Distintos.  São Paulo: Global (101-118).

FRANCHETTO, B. & SANTOS, M. 

2001  Estruturas argumentais em Kuikuro (Karib do Alto Xingu). Ana Suelly  A. C. Cabral & A. Rodrigues (orgs), Estudos sobre Línguas Indígenas I (GTLI Niterói). Belém: UFPA (101-115).

2002  "Construção de bases de dados lexicais: o Projeto Kuikuro e o Programa DOBES". Ana Suelly  A. C. Cabral & A. Rodrigues (orgs), Atas do I Encontro Internacional sobre Línguas Indígenas, Tomo II. Belém: EDUFPA (22-36).

Artigos em Revistas Científicas:

FRANCHETTO, B.

1977  "Classes semânticas na língua kuikúru". Atas do II Encontro Nacional de Linguística, PUC/RJ (116-144).

0983  "A fala do chefe: um gênero de fala kuikúru". Cadernos de Estudos Linguísticos,n. 4, Linguística Indígena e Responsabilidade Social. IEL, UNICAMP, Campinas (45-72).

1989  "Forma e significado na poética oral Kuikúro". Amerindia 14, Septembre. Laboratoire d"Ethnolinguistique, CNRS, Paris.

1990  "A Ergatividade Kuikúro (Karíbe): Algumas Propostas de Análise". Cadernos de Estudos Linguísticos 18. IEL/UNICAMP, Campinas, jan/jun  (57-78).

1991  "A ergatividade em línguas karíbe: uma hipótese explicativa". Anais do V Encontro Nacional da ANPOLL. Área de Linguística. ANPOLL, Porto Alegre-RS,  (256-264).

1993  "A viagem de Ihúmpe: uma estória e uma história kuikúro". In Terceira Margem, Ano 1, n.1 (52-56).

1991  "A ergatividade kuikúro: quadro geral, hipóteses explicativas e uma visão comparativa". Revista Latinoamericana de Estudios Etnolinguísticos, Vol VIII, año 1994, Lima, Peru, Linguistica Tupi-Guarani/Caribe (estudios presentados en el 47 Congreso Internacional de Americanistas, 7-11 de julio de 1991, Nueva Orleans) (7-16).

1996  "As línguas Ergativas e a Teoria da Gramática". Atas do I Congresso Internacional da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN), Salvador, ABRALIN-FINEP-UFBA  (220-226).

1997  "Tolo Kuikúro: Diga cantando o que não pode ser dito falando". Invenção do Brasil, Revista do Museu Aberto do Descobrimento. Ministério da Cultura (57-64).

1998  "Tolo: cantos kuikuro"  Actas de las III Jornadas de Lingüística Aborigen. Buenos Aires 20-23 de mayo de 1997. Universidade de Buenos Airers/Facultad de Filosofia y Letras/Instituto de Linguistica (415-425)

8.2.23-"How to Integrate Ethnographical Data into Linguistic Documentation: some remarks from the Kuikuro Project (DOBES, Brazil)". P. Austin, H. Dry e P. Wittenburg (orgs.), Proceedings of the International LREC Workshop on Resources and Tools in Field Linguistics. ISLE/DoBeS. 2002

MARCUS MAIA, BRUNA FRANCHETTO, YONNE DE FREITAS LEITE, MARÍLIA FACÓ SOARES & MÁRCIA DÁMASO VIEIRA

1998  "Comparação de Aspectos da Gramática em Línguas Indígenas Brasileiras". D.E.L.T.A., São Paulo, Vol. 14 n.2  (349-376).

1999  "A Estrutura da Oração em Línguas Indígenas Brasileiras". D.E.L.T.A., São Paulo, Vol. 15 n.1  (1-26).

Encaminhados para publicação:

Capítulos de livro:

FRANCHETTO, Bruna "Les marques de la parole vraie en Kuikuro, langue caribe du Haut-Xingu (Brésil)". Z. Guentcheva & I. Landaburu (eds), Modalités Episthémiques, Paris: Editions Peeters.

Periódicos:

FRANCHETTO, Bruna  "L’autre du même: parallélisme et grammaire dans l’art verbal des récits Kuikuro (caribe du Haut Xingu, Brésil)". Amerindia 28. Paris: CNRS.

FRANCHETTO, Bruna  "As artes da palavra". Cadernos de Educação Escolar Indígena, No 02, V. 01. Barra do Bugres: UNEMAT.


 

ABREVIAÇÕES UTILIZADAS COMO GLOSAS

1                         first person

12                       first person dual inclusive

13                       first person plural exclusive

2                         second person

3                         third person

AL                      allative (-na)     (movimento para)

CMPL                completive (aspect) (leha)

COLL                collective

CONT                continuous  (aspect)

COP                   copula

D                        deictic

DES                   desiderative

INTR                  detrasitivizer

ENF                   emphatic

ERG                   ergative

ex                       nominal suffix with past meaning, detached from* (-pe)

FUT                   future

HAB                   habitual

HORT                hortative

HYP                   hypothetical

IMP                    imperative

INTF                  intensifier  (-ha)

INTL                  intentional (mood)*

INST                  instrumental

INSTNR            instrument nominalizer

LOC                   locative (em; -te)

LOCNR             place nominalizer

NEG                   negation

NMLZ                nominalizer

OM                    object marker*

PERF                 perfective

PL                      plural

PONT                punctual (aspect)

PURP                 purposive  (V-inha)

REL                    relator ("possession" suffixes)

REFL                 reflexive

TEMP                temporal marker/posposition (for temporal subordination)

TR                      transitivizer

VERB                 verbalizer



[1] Não podemos nos limites deste trabalho tratar de modo específico e exaustivo as interrogativas e as relativas em Kuikuro.